
O Descontrole, para a sua primeira edição, conseguiu uma entrevista exclusiva com Fernanda Takai, do Pato Fu, confira aí!
O que faz uma grande banda dizer adeus ao mainstream para abraçar o
mercado independente? O Pato Fu, com seu novo disco, volta a experimentar o
gostinho de fazer música sem estar ligado a uma grande gravadora
DESISTA DE SER SEMPRE VOCÊ
É difícil fazer comparações entre os discos do Pato Fu porque, desde o início, cada álbum retrata uma fase distinta de uma ban-da bastante mutante (desculpe o trocadilho, leitor, não tenho a intenção de equiparar, mais uma vez, o Pato Fu à banda do Sérgio Dias). Aliás, essa é uma característica inte-ressante que ajuda a medir a honestidade que o músico é capaz de imprimir em seu trabalho. Se o artista representa o seu tem-po, um bom disco deve ser o registro daquilo que se vive naquele momento e não uma repetição de fórmulas. Por não seguir fórmu-las, a banda do John, do Ricardo, da Fer-nanda, do Xande e do Lulu se reinventa a cada novo trabalho e consegue surpreender aos fãs e até mesmo aos que estão passan-do desapercebidamente. A galerinha optou por lançar seu novo álbum em formato virtu-al, antes do físico. As doze faixas de Daqui pro Futuro foram disponibilizadas para download na loja virtual da UOL e o disco completo pode ser baixado por R$9,90. Com esse novo trabalho (lançado em Outubro deste ano) O Pato Fu voltou ao mercado independente (a distribuição é feita pela Tratore): “Foi uma escolha natural. Já tínhamos experimentado o mercado independente no início, depois passamos 10 anos dentro de uma gravadora grande [BMG] com total liberdade artística. Quando o negócio começou a ficar estranho: os contratos pio-res, as verbas menores, não fazia sentido continuar”, conta Fernanda Takai. No formato físico, o CD não contém aquela já clássica inscriçãozinha: “Proibida a reprodução, execução pública e locação desautorizadas sob as penas da Lei”. Que o consumidor interprete isso à sua maneira.
Daqui pro Futuro veio mais calminho, um disco de uma banda pop madura e, apesar de inovadora, coerente. “Acho que a gente não é muito panfletário. Sempre acabamos apontando o dedo pra nós mesmos. Nossas incertezas, nossas alegrias e tristezas. Às vezes travestimos um tema mais sério com um arranjo mais pra cima. Talvez o Pato Fu não consiga ser nunca purinho. A gente é meio vira-lata nesse sentido.” As letras do novo disco, como as de anteriores, tratam de temáticas existencialistas com bastante propriedade. O Pato Fu não hesita em fazer canções que, embora se configurem como música pop, contém letras capazes de pro-vocar as pessoas a refletir sobre escolhas, amor, sexualidade, família, política, religião, violência, tempo, fama, liberdade e outros temas tão ou mais profundos. Isso ajuda a sustentar aquela teoria de que a música, ho-je, tem um papel importantíssimo na formação crítica do indivíduo, tarefa que até pouco tempo atrás era de incumbência dos livros e da literatura como um todo.
Fernanda Takai sussurra nas canções muito bem construídas de Daqui pro Futuro alguns recadinhos “maldosos” aos que colocam o disco novo da banda em sua playlist. O fato de as letras do Pato Fu estarem apontando o dedo para o indivíduo faz com que seu conteúdo esteja bastante conectado a uma certa filosofia existencialista. Em Espero, de Fernanda e John, pode-se ouvir: “Dizem que não sirvo pra gostar de ninguém, que não faço nada que não seja pro meu bem. Falo coisas de mau gosto, não posso evitar, e há quem mesmo vire o rosto ao me ver chegar”. Palavras que lembram personagens inventados por Jean-Paul Sartre ou por Clarisse Lispector em suas obras. Aliás, no novo disco há uma canção com o título A Hora da Estrela, uma certa referência à obra da escritora brasileira. Entretanto, a letra não fala da Macabéia, mas de alguém que está prestes a assumir um sucesso instantâneo, como essas pessoas que entram em evidên-cia por meio de reality shows ou escândalos midíáticos. Woo! tem clima setentísta, lem-brando os Mutantes (ops!) ou, talvez, Secos e Molhados. Pela primeira vez, aparente-mente, os patinhos falam sobre a temática homossexual, convidando o sujeito a “sair do armário”: “Veja como é ótimo, não tenha medo, conte seu angélico segredo”. Mas a canção abre espaço para uma interpretação mais anárquica quando faz uma interpelação para que se largue tudo e vá à forra, can-tando que “a confusão pode ser doce, a perfeição pode matar”. Mamã Papá nos remete, à primeira audição, à Nina, filha do casal Fu, por causa de suas considerações sobre a responsabilidade de se iniciar uma família. Tudo Vai Ficar Bem, com a partici-pação estrangeira de Andréa Echeverri (Aterciopelados), leva o ouvinte a conhecer o engajamento político-social da banda. A Verdade Sobre o Tempo trata a maturidade com uma visão filosófica um pouco mais ousada que a de Almir Sater em Tocando em Frente. Deus também desce do céu pra cantar “Quem não sou” (com participação especial do robozinho de Simplicidade). Nada Original apresenta a vida desgastada de um casal que vive uma rotina intermitente e 1.000 Guilhotinas reflete sobre a guerra. 30.000 Pés e Vagalume são a face mais pop do disco que, como todo mundo já sabe, carrega ainda uma versão super maneira de Cities In Dust do Siouxsie & The Banshees.
Um pouco às escondidas, o Pato Fu se caracteriza como uma das mais respeitadas bandas do Brasil. Surgida numa década um tanto turbulenta, sustentou um jeito de ser próprio que, apesar de mutável, não desa-grada aos fãs que acompanham o trabalho da banda desde o comecinho. A partir do rompimento com a ex-gravadora, vem assumindo uma nova forma que, possivel-mente, fará com que o Pato Fu se configure entre os melhores do mundo (como já foi classificado, nos tempos do Ruído Rosa, por uma revista estrangeira). “O ‘Toda Cura...’ já foi um exercício de independência mas era distribuído ainda pela SonyBMG. Este ano percebemos que havia mais agilidade e satisfação pessoal mesmo no trabalho com gente que gosta e acredita na nossa música de verdade. E tem sido muito bom! Hoje é bem melhor ser independente que no come-ço dos anos 90, quando nem internet havia...”. Talvez este seja o aval do Pato Fu às bandas novas que vem surgindo e fazendo com que a música brasileira dê um salto de qualidade em direção à universali-dade da arte e da catarse pop que faz o mundo se conectar para além de interesses comerciais. Assim seja!